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Cólica Menstrual Forte Não é Normal: O Que Isso Pode Estar Querendo Dizer

Antes de começar: o problema com a normalização da dor

Menstruar dói! Será? “Toma um analgésico, coloca uma bolsa de água quente e aguenta”. E, de certa forma, sim — algum desconforto menstrual é esperado. Mas há uma diferença enorme entre desconforto tolerável e dor que incapacita.

Quando uma mulher falta ao trabalho, não consegue sair da cama, precisa de doses elevadas de analgésico para funcionar, ou sente dor que irradia para as costas e pernas — isso não é variação normal do ciclo. Isso é um sinal que precisa ser investigado.

A normalização da cólica intensa tem um custo real. Mulheres com endometriose levam em média sete a dez anos para receber este diagnóstico. Sete a dez anos! Parte desse tempo é perdido porque a própria paciente, sua família e às vezes seus médicos tratam a dor como algo que deve ser suportado, não investigado.

A diferença entre dismenorréia primária e secundária

Dismenorreia é o termo técnico para cólica menstrual. Existem dois tipos com mecanismos completamente diferentes.

Dismenorreia primária: é a cólica sem causa orgânica identificável. Acontece porque o endométrio produz prostaglandinas — substâncias que provocam contração uterina para ajudar na eliminação do tecido descamativo do endométrio. Em algumas mulheres, a produção dessas substâncias é excessiva, o que gera contrações mais intensas e, consequentemente, dor mais forte. Essa forma é mais comum em adolescentes e mulheres jovens e tende a diminuir com a idade ou após uma gestação.

Dismenorréia secundária: é a cólica que tem uma causa subjacente. Endometriose, adenomiose, mioma uterino, síndrome dos ovários policísticos, doença inflamatória pélvica, estenose cervical — tudo isso pode se manifestar como cólica intensa. Essa é a forma que não deve ser ignorada.

A distinção entre as duas não é sempre fácil clinicamente. A dismenorréia secundária costuma começar mais tarde na vida, pode piorar progressivamente ao longo dos anos, pode ser acompanhada de outros sintomas e tende a não responder tão bem aos analgésicos comuns.

Endometriose: a causa mais subestimada

Endometriose é uma condição em que tecido semelhante ao endométrio — a camada interna do útero — cresce fora da cavidade uterina. Pode estar nos ovários, nas tubas uterinas, na bexiga, no intestino, no peritônio ou em outros lugares dentro da cavidade abdominal. Esse tecido responde ao ciclo hormonal da mesma forma que o endométrio: cresce, inflama e sangra. Mas não tem para onde ir.

O resultado é inflamação crônica, formação de aderências e dor — às vezes devastadora. A cólica da endometriose costuma começar um ou dois dias antes da menstruação e pode se estender por toda a duração do ciclo. Pode irradiar para as costas, as pernas, o reto. Pode causar dor ao evacuar, dor ao urinar durante a menstruação, dor durante a relação sexual.

Endometriose afeta aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva. No Brasil, estima-se que cerca de 7 milhões de mulheres tenham a condição. E, no entanto, o diagnóstico demora anos. Não por falta de tecnologia — mas porque a dor menstrual continua sendo minimizada.

Não existe exame de sangue que diagnostica endometriose. Exames de imagem como a ultrassonografia, a ressonância magnética podem identificar endometriomas nos ovários, ou lesões maiores na pelve, mas não  lesões pequenas ou superficiais. O diagnóstico definitivo é cirúrgico — videolaparoscopia com biópsia. O tratamento existe, melhora a qualidade de vida e pode preservar a fertilidade quando feito no momento adequado.

Adenomiose: quando o músculo uterino é afetado

Na adenomiose, o tecido endometrial invade o miométrio — a camada muscular do útero. O útero fica aumentado, congesto, com funcionamento alterado. A cólica costuma ser intensa, com sangramento menstrual mais volumoso do que o habitual, e pode ser acompanhada de sensação de peso pélvico.

A adenomiose é mais frequente em mulheres após os 30 anos, especialmente aquelas com gestações anteriores. É diagnosticada pela ultrassonografia ou ressonância magnética. O tratamento vai desde manejo hormonal até cirurgia, dependendo da gravidade e do desejo reprodutivo da paciente.

Mioma uterino e cólica

Os miomas são tumores benignos do músculo uterino. São muito comuns — afetam aproximadamente 25% das mulheres em idade reprodutiva. A maioria dos miomas é assintomática. Mas quando o mioma é submucoso — ou seja, cresce em direção à cavidade uterina internamente — pode causar cólicas intensas, sangramento aumentado,  sensação de pressão e até dificultar uma gestação.

A ultrassonografia identifica miomas com boa precisão. O tratamento depende do tamanho, localização, quantidade de miomas e dos sintomas da paciente.

Outros sinais que acompanham a cólica intensa

A cólica não costuma vir sozinha quando há uma causa subjacente. Fique atenta a: sangramento muito intenso ou com coágulos grandes; menstruações com mais de sete dias de duração; dor durante a relação sexual, especialmente com penetração profunda; dor ao evacuar ou ao urinar durante a menstruação; sangramento fora do período menstrual; dificuldade para engravidar.

Cada um desses sinais, isolado ou em combinação com a cólica intensa, aumenta a probabilidade de uma causa orgânica que precisa de investigação. Não é hipocondria — é atenção ao que o próprio corpo está comunicando.

Como é feita a avaliação

A investigação começa pela consulta ginecológica. O médico vai perguntar sobre o padrão da dor — quando começa, quanto tempo dura, qual a intensidade em escala, onde irradia, o que piora e o que melhora. Vai perguntar sobre o fluxo menstrual, a duração do ciclo, sintomas associados.

O exame físico inclui palpação abdominal e exame especular e toque vaginal, que permite avaliar o tamanho uterino, a mobilidade dos ovários e a presença de dor ao toque em regiões específicas. A ultrassonografia pélvica — de preferência transvaginal — é o exame de imagem mais comumente utilizado na investigação inicial.

Em casos com alta suspeita clínica de endometriose, a ressonância magnética com contraste e preparo intestinal pode ser indicada. Em situações específicas, a videolaparoscopia diagnóstica é necessária.

O que não fazer

Não tome anticoncepcional para mascarar a dor sem saber a causa. Os anticoncepcionais hormonais reduzem os sintomas de várias condições, inclusive endometriose — e isso é útil no tratamento, mas o diagnóstico precisa acontecer. Uma mulher que usa anticoncepcional por dez anos para controlar a cólica e só investiga quando quer engravidar perdeu uma janela de tempo importante para o tratamento.

Não normalize a dor que interfere na sua vida. Cólica que faz você faltar ao trabalho, que você só controla com anti-inflamatório em dose alta, que piora a cada ciclo.

Perguntas frequentes

Com que intensidade a cólica passa a ser considerada intensa?

Não há um número preciso na escala de dor que defina o limite. O critério mais prático é o impacto funcional: se a dor interfere na sua rotina — te impede de trabalhar, estudar, praticar atividades físicas ou dormir — ela merece investigação. Não é sobre aguentar mais ou menos.

Cólica intensa significa que sou infértil?

Não necessariamente. Mas algumas causas de cólica intensa, como endometriose, podem afetar a fertilidade se não tratadas. O diagnóstico precoce é exatamente o que permite preservar as opções reprodutivas.

A videolaparoscopia é o único jeito de diagnosticar endometriose?

É o diagnóstico definitivo, sim. Mas a suspeita clínica forte, aliada a exames de imagem compatíveis, já é suficiente para iniciar o tratamento em muitos casos. A videolaparoscopia diagnóstica e terapêutica é indicada quando o diagnóstico é incerto ou quando o tratamento clínico não está funcionando.

Endometriose tem cura?

Não existe cura no sentido de eliminação definitiva. Mas tem tratamento eficaz que reduz sintomas, melhora a qualidade de vida e preserva a fertilidade. O acompanhamento contínuo é necessário.

Minha mãe tinha endometriose. Minha chance é maior?

Sim. Há componente familiar na endometriose. Se você tem histórico familiar e sofre de cólicas intensas, a investigação deve ser feita sem hesitação.


Cólica que limita sua vida não é algo para suportar em silêncio!

Na Clínica Yaffa, avaliamos a dor menstrual com seriedade — investigamos a causa, explicamos o diagnóstico e construímos o tratamento junto com a paciente. 

Se você se identificou com alguma parte deste texto, agende uma consulta.


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